Ditadura e horrores reais

as coisas que perdemos no fogo, de mariana enríquez


Os doze contos de As coisas que perdemos no fogo levam o leitor num passeio por diversos locais da Argentina. Mas não é um passeio turístico, não há tango, não há Messi e não há alfajores. Há um relato visceral de um país marcado por tragédia política e cheio de traumas históricos, provavelmente em algum momento entre os anos 80 e 90, quando havia uma jovem democracia, mas uma economia arruinada, um medo de crises e os fantasmas da pobreza misturando-se aos fantasmas sobrenaturais com os quais as narrativas flertam. Dessa forma, tendo como cenário um país que é uma sucessão de promessas frustradas e constante incerteza política, o sobrenatural passa a ser apenas acessório para fazer esse passeio sombrio por uma Argentina na qual leitores brasileiros devem encontrar muitos pontos de similaridade.

Há muitas questões passíveis de discussão a partir da leitura da obra de Mariana Enriquez – alguns temas muito relevantes permeiam todo o livro, como a situação feminina e o flerte com o elemento fantástico e sombrio. Nesta resenha, vou focar em uma questão que aparece em alguns contos: traumas argentinos com horrores da ditadura. Para tanto, vou limitar minha análise a apenas três dos contos do livro: A Hospedaria, A Casa de Adela e Teia de Aranha.

spoilers sobre o final de cada conto, portanto siga por sua conta e risco.


Em A Hospedaria, duas garotas adolescentes, Florencia e Rocío, entram numa hospedaria de Villa Sanagasta à noite para pregar uma peça na dona. O edifício havia sido "escola de polícia até trinta anos antes, antes de virar hotel", e as próprias meninas tem noção de que o período corresponde à época da ditadura. O pai de uma delas trabalhava para o hotel, mas foi demitido supostamente por contar a história a turistas, sendo esse o motivo pelo qual as meninas querem se vingar da proprietária. Mas enquanto estão no hotel, à noite, acabam presenciando um arroubo de luzes de carros e vozes de homens que as assusta, fazendo-as gritar e acabarem sendo descobertas. Fica em aberto se as meninas foram sugestionadas pela história e imaginaram o evento (improvável, já que as duas tomaram o susto) ou se havia algum tipo de presença sobrenatural na hospedaria, como reminiscência de algo ocorrido na época em que o edifício era uma escola de polícia.

Em A Casa de Adela, três crianças pré-adolescentes, no bairro de Lanús, em Buenos Aires, desenvolvem uma forte amizade: a menina Adela e os irmãos Pablo e Clara. Adela não tem o braço esquerdo, um problema de nascimento, e é mais rica que os colegas. Por gostarem muito de filmes de terror, Pablo e Adela ficam fascinados por uma casa abandonada no bairro, até decidirem entrar nela na noite do último dia de verão, e Clara vai junto. Dentro da casa encontram luz forte, embora não haja lâmpadas, e coisas estranhas como livros de medicina e prateleiras com unhas e dentes. Adela entra por uma porta e não sai mais, Pablo e Clara buscam ferramentas para tentar salvá-la mas não conseguem mais entrar na casa. Quando os pais e os policiais chegam, não acreditam na história das crianças, pois a casa por dentro está caindo aos pedaços. Adela nunca é encontrada, viva ou morta, e o evento assombra para sempre o casal de irmãos. Pablo acaba cometendo suicídio aos vinte e dois anos.


Em Teia de Aranha, conhecemos os três personagens principais: a narradora que não chega a ser nomeada, seu mardo Juan Martín e sua prima Natalia. De Corrientes, no norte da Argentina, decidem ir passear em Assunção, no Paraguai, mas na volta o carro enguiça e são obrigados a passar a noite em um hotel em Clorinda. Juan Martín é um homem desagradável e a narradora se sente presa no relacionamento. Sua prima Natália tem um affair com o caminhoneiro que os ajuda na estrada, e que durante o jantar conta histórias sobre uma ponte em Campo Viera que supostamente foi erguida sobre alicerces com corpos de mortos vítimas dos militares, e um outro dos caminhoneiros presentes conta sobre o caso de uma família viajando ali por Clorinda num trailer: enquanto o pai com mulher e filhos saem para jantar, o veículo é furtado com a sogra dentro, e embora o veículo seja encontrado, a velha senhora nunca é. Juan Martín volta para o quarto, mas a narradora não o encontra lá na manhã seguinte: ele desapareceu, e o conto deixa em aberto se foi por vontade própria ou se o destino dele foi, de alguma forma, o mesmo da velha senhora com o trailer.


As três histórias flertam com um medo, que pode ser mascarado como um medo sobrenatural, mas é na verdade o medo de uma violência muito real sofrida num passado bem recente. Embora o momento nem sempre seja especificado, pode-se razoavelmente supor que todos os contos do livro se passam entre o final dos anos 1980 e o começo dos anos 2000, ou seja, as memórias dos períodos ditatoriais passados entre 1966-1973 e 1976-1983 ainda estão frescas na memória coletiva. Dos três contos que ora analisamos, um aborda fantasmas dos militares propriamente ditos e os outros dois falam de desaparecimentos de pessoas.

Embora a hospedaria do primeiro conto tenha sido apenas uma escola de polícia, a presença dos espíritos dos militares que assustaram as meninas pode ser interpretada como uma reminiscência da violência que a sociedade sofreu e que ainda está presente na memória de todos, mesmo na geração mais jovem, que não viveu o período mas sentiu o drama através dos relatos de pais e avós. Pelas informações que as meninas personagens possuem, pode ser que alguém tenha morrido no local (talvez vítima de torturas) ou pode ser que não, mas a certeza neste caso pouco importa, pois a opressão de uma ditadura militar representava uma violência sempre presente e ameaçadora, cujo fantasma continua a assombrar o imaginário coletivo anos depois do fim do período ditatorial.

No próximo conto, a jovem Adela não está viva nem morta, está desaparecida: um destino de certa forma pior do que a morte, e que assombra inúmeras famílias de pessoas que tiveram suas vidas interrompidas mas ao mesmo tempo não tiveram um desfecho que permitisse aos familiares dizer adeus e virar a página, condenados ao eterno tormento de um limbo espremido entre a tristeza e um fio de esperança. A tortura nos porões da ditadura dura alguns dias ou meses para os presos, e uma eternidade para suas famílias. Os dentes e unhas que as crianças encontram em prateleiras em um dos cômodos da casa são muito provavelmente os troféus de um torturador, talvez alguém vindo da Europa no período da Guerra Fria, pois na investigação sobre a casa as crianças aprendem que o casal de velhinhos que ali morava antigamente era estrangeiro, possivelmente russos, lituanos ou poloneses. Sendo Adela uma criança, é possível também que seu desaparecimento na história seja uma referência à política da ditadura argentina de roubar filhos de inimigos do regime e entregá-los a outras famílias, com novas identidades. De uma forma ou de outra, a tônica do conto é dada por seu desaparecimento e o sofrimento restante aos demais personagens, sejam seus pais ou seu amigo Pablo, que carrega a culpa de tê-la envolvido na aventura e irá cometer suicídio alguns anos depois.

Em Teia de Aranha, o título faz referência primeiramente às rendas paraguaias que os personagens vão comprar em Assunção, mas numa leitura mais profunda está falando de armadilhas e situações das quais é dificil de se escapar, em diferentes níveis. A protagonista não nomeada está obviamente presa em uma situação da qual tem dificuldades de sair, que é o próprio casamento, e seu desagradável marido Juan Martín acaba preso em uma outra armadilha maior. Podemos interpretar, numa leitura quase cômica, que assim como o dono do trailer desejou se ver livre de sua sogra, a narradora não nomeada do conto desejou se ver livre de seu marido detestável Juan Martín, e nos dois casos as trevas atenderam a estes desejos. Mas a temática imanente aqui – e repetida em vários contos da antologia – é a do desaparecimento. O destino de Juan Martín é análogo ao da velha senhora no caso do trailer, e ambos estão tão desaparecidos quanto as milhares de vítimas do regime militar, muitas das quais constituindo de forma permanente os alicerces da ponte de Campo Viera.


A literatura de Enriquez realiza o horror se aproveitando dos medos e receios que já existem dentro dos leitores, talvez para cortar caminho e lograr provocar grandes aflições com narrativas relativamente curtas. Nesse sentido, há diversas aflições das quais ela se aproveita, algumas se repetindo ao longo de diversos contos, e o passado ditatorial é certamente uma delas. Durante o século XX, a Argentina passou por diversos períodos de ditadura, alguns marcados por enormes quantidades de violência e pelo desaparecimento de pessoas, que é um tema tão caro à obra. Como não poderia deixar de ser, um passado como este deixa cicatrizes na sociedade: feias e desagradáveis, mas boas para lembrar do mal sofrido. E isto é parte do que Mariana Enriquez faz com seus contos neste livro: expõe a cicatriz, com seus detalhes mais ardidos.